Blogueiros e colunistas brasileiros sofrem ameaças virtuais e presenciais

Enderson Araújo está com tanto medo de ser assassinado pela polícia, que ele teve que fugir de casa e está relutante em falar ao telefone.

Araújo é o blogueiro brasileiro que está por trás do Mídia Periférica, um blog alimentado por jovens jornalistas do nordeste da cidade de Salvador, que foca na cobertura de notícias de comunidades pobres que não são alvo da mídia tradicional.

Depois que ele escreveu sobre uma onda de jovens mortos em tiroteios policiais, no último mês, um policial o abordou com um aviso de arrepiar.

“Pare de mover seus dedos e criticar os que realmente promovem sua segurança, ou então, você pode acabar não tendo nenhuma”, o policial, que estava uniformizado mas sem nome de identificação, disse a ele.

Araújo juntou suas coisas e, três dias depois, estava em outro estado.

“Eu estava escrevendo sobre batidas policiais e assassinatos em que todas as vítimas eram jovens negros”, o jornalista de 23 anos disse ao Comitê de Proteção ao Jornalista (CPJ), através de pequenas pílulas via telefone e mensagem de texto de uma localização não identificada.

A polícia militar do estado da Bahia disse ao CPJ que não recebeu nenhuma reclamação formal do jornalista, e afirmou que estão investigando os assassinatos dos jovens, 13 dos quais aconteceram durante um tiroteio com agentes da lei no dia 6 de fevereiro, em Salvador.

Isso é pouco confortável para Araújo, mas ao menos ele sabe de onde as ameaças estão vindo.

Ana Freitas não tem a mesma sorte.

Freitas, jornalista de 26 anos, está sendo assediada quase diariamente desde que escreveu sobre machismo e misoginia em páginas abertas da internet brasileira.

O texto de Freitas foi publicado em 2 de fevereiro no Brasil Post, afiliada brasileira do Huffington Post, e mesmo que ela não tenha mencionado algum site ou fórum especifico, se tornou rapidamente um alvo, ela afirmou ao CPJ por telefone.

Usuários anônimos de um fórum do site 4chan abusaram e a ameaçaram. Os incidentes, que aconteceram no decorrer de dias, forçaram-na a fechar algumas de suas contas nas redes sociais e mudar as configurações de outras. Depois dela ter aceitado por engano um convite para um evento do Facebook, seus agressores encorajaram uns aos outros a atacá-la no evento, Freitas disse ao CPJ.

Ela cancelou seus planos, mas os abusos continuaram, e depois de alguém descobrir e publicar seu endereço, ela disse que foram enviados fezes, larvas, brinquedos sexuais e outros objetos através do correio.

Freitas disse que apresentou um relatório sobre o abuso na Delegacia da Mulher, depois de uma delegacia normal tê-la tratado de forma rude.

No entanto, sua situação melhorou apenas depois de O Estado de S.Paulo ter publicado seu artigo sobre o assunto: algo do que ela falou assustou os usuários do 4chan.

“Eu não estou 100% a salvo, minha vida gira em torno disso”, afirma. “Eu não saio sozinha se não é necessário, não dou nenhuma pista de onde estou, não posto fotos. Eu me sinto um pouco mais segura agora, mas estou sempre tentando seguir rotinas diferentes.”

Outro jornalista brasileiro que recebe ameaças constantes é Leonardo Sakamoto, que estuda e denuncia casos de trabalho escravo por meio da ONG Repórter Brasil. Recentemente, o texto que publicou em seu blog sobre a Lei de Acesso à Informação e a lista suja do trabalho escravo, gerou burburinho e irritou muita gente.

“Em resposta à atuação da Repórter Brasil, na investigação e denúncia de casos de trabalho escravo contemporâneo e tráfico de seres humanos, e do meu blog, no acompanhamento de violações aos direitos humanos, uma onda de ataques começou nas redes sociais e em sites ligados a ultraconservadores, fundamentalistas religiosos e grupos contrários ao combate à escravidão. As campanhas de difamação e calúnia tentaram primeiro desqualificar o trabalho da organização. Isso alimentou os malucos de plantão que já tentaram, em mais de uma ocasião, me agredir fisicamente na rua. Daí vieram ataques mais pesados e ameaças. Estou em contato com o Ministério Público Federal e outras instituições da sociedade civil daqui e do exterior para o devido encaminhamento”, declarou o jornalista em nota.

Segundo Sakamoto, a Repórter Brasil é vista como um problema para os ultraconservadores que ainda são a favor do escravismo, e quando as denúncias são divulgadas, esse público “sai do armário” e expõe suas ameaças e mensagens ódio. O jornalista ainda afirma que todo esse quadro é muito mais um resultado da atual conjuntura pela qual o Brasil passa do que das ações da Repórter Brasil em si.

Em nenhum dos três casos os autores das ameaças sofreram qualquer consequência.

Fonte: ABRAJI

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