Inglaterra: moderninha na fachada, atrasada no coração

O combustível que está ateando fogo à Inglaterra é a insatisfação dos sem-consumo.
A Inglaterra não é uma nação de miseráveis insatisfeitos. A cesta básica está garantida para todos. É, sim, uma nação de carências guetificadas numa era em que a propaganda cria os mesmos desejos em todos, miragens globalizadas.


Ok, mas queimar, destruir e até matar por causa de um iPad ou de um celular 4G?
Pelo bem e pelo mal, a Inglaterra surpreende.
O governo Tony Blair até que buscou reforço na imagem de um Reino Unido de costas para a tradição e de frente para a modernidade. Criou até o conceito de “Economia Criativa”, privilegiando, com grana oficial, o investimento em áreas que pareciam não combionar nem um pouco com uma monarquia cheia de ritos e frescuras.

Tirou empresas de games de Los Angeles, trouxe criadores de HQ da França, abriu museus sem cheiro de mofo (a Tate Modern foi a primeira a exibir, na fachada, um painel de 40 metros de altura dos nossos osgemeos), acreditou que turismo, moda, gastronomia passariam a movimentar – em vez das montadoras de automóveis – o núcleo virtuoso e dinâmico da economia.

Blair depois se deixou levar por aquela conversa delirante de George Bush, afundou a Inglaterra no atoleiro do Iraque e do Afeganistão e acabou por sair de cena. Mas a intuição dele estava correta.
Os acontecimentos incendiários de agora, de uma violência inédita e aparente gratuita, mostram que a Inglaterra é bacaninha na fachada mas não conseguiu repartir com os excluídos o que eles mais almejavam.
Não o bolo da renda nacional – e, sim, fazer com que todos os cidadãos do Reino, imigrantes incluídos, compartilhem a sensação de pertencer a uma nação próspera, moderna, civilizada e justa.

Assim fica difícil, né não?

Nenhum comentário:

Postar um comentário